sábado, 13 de maio de 2017

Uma fenda no quadro

Obs.: Texto originalmente publicado no blog Papel Papel.



Desde a infância eu não me interessava mais por quebra-cabeças. Contudo, minha apatia durou até quatro anos atrás. 


Certo dia, minha mãe trouxe uma bolsa grande com um monte de caixas e entrou pela porta dizendo: “Olha o que eu trouxe, Jonatas”. Ela foi para sala e pôs a maior das caixas que tinha uma bela e colorida ilustração sobre a mesa. Não me importei a princípio. Ao decorrer da semana, comecei a observá-la. Tardes inteiras debruçada sobre os cotovelos, ajeitando os óculos sobre o nariz para não cair no montinho de peças. Seu gesto me parecia esconder algo que me chamava a atenção, como acontece com a luz de vela que atrai a curiosidade das mariposas.


Duzentas, quinhentas, mil, quantos fossem os números do desafio, ela saciava um apetite pelo jogo. Insistia, e eu sempre procurava saber se ela estava lá, esforçando o olhar através das lentes, até, por fim, a imagem se formar. Depois de terminado o jogo (que durava até semanas), emoldurava e presenteava alguém com o quadro. E logo começava a montar outro e outro, como se montando pedaços de um destino sem fim, sem se importar com o que passou. Apenas seguindo adiante como o velho mundo.


Certa vez ela montou um quadro que não gostei muito. Não sei explicar exatamente por que, mas criei um pouco de antipatia pelo desenho. Achava-o desajeitado, imagino agora. Mas nunca cheguei a sentir aversão. Só o considerava medíocre comparado aos quebra-cabeças que ela me deu de aniversário (uma suntuosa construção europeia do século XVII-XVIII). O quadro desajeitado não significava muita coisa ali, pendurado na parede da sala e me encarando com aquele monte de árvores com folhas vermelhas, como se estivessem condenadas a queimar eternamente em chamas secas. Era só isso que eu conseguia enxergar. Árvores vermelhas e um casarão desengonçado projetando uma ponte sobre um rio. Nada mais.




Seja qual for o motivo, ignorei a presença vermelha por alguns anos. Até que, em uma tarde que me lembro bem, deitado desinteressadamente no sofá, percebi que faltava uma peça. Levantei e toquei o vidro embaçado, bem na quarta peça de cima para baixo, a décima primeira da direita para a esquerda. Passeei os olhos ao redor do buraco e, na falta daquela peça, notei que havia montanhas. Muitas montanhas ao fundo. Uma bela cordilheira que sumia como fuligem azulada, confundindo-se com o céu anil, imitando as cores e formas do ventre das nuvens logo acima. Senti meu olhar cair como num precipício. Estava tudo tão distante, mas, de algum modo, céu e montanhas se ajustavam de forma tão íntima.


Dali por diante percebi outros detalhes. Um casal de patos na parte superior do rio, ao lado do moinho; um homem vestindo um chapéu, calças e casaco azuis montado em um cavalo azulado com manchas brancas; cervos se aproximando de um casebre de pedra escondido no bosque. Cada fração nova se revelava pouco a pouco, conforme sua própria vontade.


Entre todas as coisas que percebi no quadro, a mais curiosa a se destacar foi que não havia somente árvores de folhas vermelhas, mas algumas bem claras, entre dourado e branco, e outras amareladas num quase tom verde. Os pinheiros são os únicos que mantêm suas folhas absolutamente verdes e vivas, apontando como lanças, como se almejassem espetar o firmamento. Enfim. Posso com absoluta certeza que o perfeito retrato de outono está pendurado bem no meio da parede de minha sala, me observando. O longo e suave Outono que parece durar até agora.




Não ouso afirmar que algum dia eu vá gostar de montar quebra-cabeças como minha mãe. A coisa mais próxima a isso é minha sede por ajustar as palavras até formar uma história. Mas fico satisfeito ter aprendido com ela a observar a beleza sutil de algo que primeiramente não apreciei. Talvez esse seja o segredo para muitas coisas que perdemos e não percebemos. Algo que esteve debaixo do nariz o tempo todo e só notamos depois de sentir falta de uma peça. Não sei. Sei apenas que daqui por diante evitarei desprezar quebra-cabeças, especialmente se neles eu encontrar peças faltando, como fechaduras abertas com segredos do outro lado, - igual ao que minha mãe deixou para mim.



P. S.: A ilustração do quebra-cabeça a que me refiro é obra da premiada artista americana Kathy Jakobsen. Para quem desejar conhecer mais obras visite: http://www.kathyjakobsen.com/

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 2)



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O motorista pôs a mão no meu ombro e fez questão de abrir a porta.

- Agora é com você, amigo. É só entrar e esperar. Srta. Carbot é o nome. Ela vai te perguntar um monte de coisas estranhas e vai tentar te botar medo. Ignore. Diga que você vai ser o novo ajudante do carro Noel RRT-224o, ok?

Consenti, abaixando a cabeça, e desci do carro.

- Eu vou carregar nossas tralhas e te encontro logo mais.

- Ok – respondi sem jeito.

- Pode entrar sem bater.

Confesso que só naquele instante percebi o quanto poderia ser estúpido ter entrado naquele carro e chegado até ali. Ninguém sabia para onde eu havia ido, nem os poucos amigos que eu tinha. Não deixei ao menos um bilhete avisando aos meus pais. Entretanto, um formigamento começava a crescer em meu estômago. Curioso, pus a mão na maçaneta. Pela fresta da pesada porta ouvi o som organizado de máquinas de escrever e motores e tilintar de sinetes, como se tocassem uma só música. As dobradiças rangeram parecendo algo vivo.

Então, como se o destino me pregasse uma peça pela segunda vez, não foram as inúmeras mesas desordenadas com máquinas de escrever ou os pássaros empalhados usando óculos de piloto sobre as estantes dos armários que primeiro vi; nem foram pessoas baixas demais penduradas nas escadas estreitas apoiadas em torres de arquivos que deviam estar a dez metros do chão, não notei que todas olhavam ao mesmo tempo para mim. Não. Não percebi nenhuma daquelas esteiras com pacotes com tamanho que iam de extra-grandes-hipopótamos a menores que dedos mindinhos, subindo e descendo, de um lado para outro sem parar; nem foram os pássaros voando de uma lâmpada a outra pendurada em lustres coloridos pendurados por finas correntes no teto, como se fossem rapazes mensageiros, entrando em saindo de um complexo de calhas douradas que perpassavam todas as paredes ao teto oval. 

A princípio, só percebi uma coisa. 

Ela tinha o cabelo incomodamente colorido, mas não achei que fosse possível ser a mesma garota. As cores tinham mudado. 

Todavia, estava enganado. 

Usava uma saia bastante curta e inadequada para aquele ambiente, e vestia uma camisa roxa de listras pretas e um avental verde, provavelmente uniforme da companhia. Reconheci pelo jeito que se movia entre as escrivaninhas, e de forma alguma era uma anã, apesar de ainda me parecer bastante pequena.

Sim, você está certa em pensar que fui idiota o suficiente para sentir aquele mesmo impulso estúpido de segui-la, como fiz na estação. Meti a mão no bolso para pegar o trevo, mas antes que conseguisse mover um passo, um cara alto se pôs na frente.

- Boa tarde, senhor... – pelo uniforme que vestia, era o segurança.

- Oh, sim – respondi, estabanado, tentando ver pelos lados de seu corpo. – Srta. Carbot. Carro Noel KNM-224.

- Não estou entendendo, senhor... – insistiu, acompanhando o meu movimento e impedindo que olhasse. – Poderia me dar mais informações?

Quando finalmente desisti de procurar a moça do trevo de quatro folhas, notei a tarjeta de identificação.

“Trajano?” 

Sabia que conhecia de algum lugar. Ele me encarou nos olhos. Era a mesma fisionomia. Queixo bruto e olheiras sorridentes. O mesmo segurança que havia me dado a folha na plataforma da estação.

- Você está se sentindo bem, garoto? – disse.

Juro que tentei, mas não consegui mover um músculo da face sequer.

Histórias de um entregador de sonhos – 7 'Quarta Folha S.A.' (Pt. 1)


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O céu continuou escuro até chegarmos a uma alta construção de tijolos desgastados . A primeira coisa que me chamou a atenção foram suas duas chaminés gigantescas cobertas de limo que sopravam gordas porções de fumaça. Em poucos instantes, as nuvens se abriam e os primeiros raios do sol iluminaram um complexo industrial tão antigo que parecia ter sido feito a partir das ruínas de um castelo. Estava todo coberto por uma camada densa raízes secas e trepadeiras escuras. Ao longe, o prédio parecia desativado, mas, ao nos aproximarmos com o carro, reparei nos vultos passando rapidamente pelas janelas longas.

As árvores à beira da estradinha eram assustadoras. Pareciam velhas bruxas petrificadas por alguma maldição à espera do fim dos tempos. Os galhos estavam tão encurvados e espaçosos que, em certos trechos, forçava o carro trafegar na contramão. Se estivesse a pé, teria de caminhar pela sarjeta abarrotada de folhas secas. Na frente de cada árvore havia estatuetas ovais bem esquisitas na cor verde. Diversas cabeças de aves sorridentes de órbitas vazias como se dessem boas vindas.

- Não encare muito tempo – disse o motorista, - elas podem se irritar.

Estremeci e virei a cabeça para frente. Ele notou meu nervosismo e riu.

- É uma brincadeira. Ninguém pode fazer nada com você aqui.

Após alguns minutos contornando o muro, notei um velhinho meio corcunda que aparava o gramado de um extenso jardim. Com dificuldade, estalou o pescoço em nossa direção e desligou o cortador. Acenou ao motorista como se fossem amigos.

- Bom dia, Noel! – disse o senhor tirando enormes óculos de proteção e limpando a grama da testa. - Pensei que não ia mais voltar.

O motorista parou o carro rente ao meio fio.

- Bom dia, Sr. Crapo. Eu tive sorte dessa vez. - Deu-me uma cotovelada, complementando, - este é o ajudante novo.

Acenei.

- Oh, sim. Soube o que aconteceu com o outro. Como era mesmo o nome dele?... Não que me importe com detalhes. Mas foi terrível, terrível, sim. Espero que esse aí também não se esqueça da sorte em casa.

- É. Foi triste - fungou. - Sabe se as guias já estão prontas?

Sr. Crapo coçou os pelos na orelha e balançou o queixo.

- Nada. O escritório abriu tarde hoje, e parece que tem um caçador rondando por aí...

- Eles estão atrasados de novo, não é?

- Bem... é o que os rapazes da triagem estão dizendo.

- Essa bagunça ainda vai acabar falindo um dia.

O velho abriu a boca mole para gargalhar, mas não saiu nada mais que um pigarro viscoso do fundo da garganta.

- Tem razão, tem razão. E tenhamos certeza, rapaz: esse dia será o fim do mundo!

O motorista não gostou da piada.

- Cuidado com o que fala, velho.

Sr. Crapo bateu duas vezes nos lábios enrugados num sorriso.

- Oh. Desculpe. Às vezes esqueço que você é supersticioso.

- Não sou supersticioso. Mas não tem motivo pra ficar me agourando. – Virou para mim. – O que foi? Está rindo de quê, nanico?

- De nada, - respondi, contraindo as bochechas.

Engatou a marcha e balançou a cabeça tentando demonstrar que não se importava.

- Tenha um bom trabalho, velho. E cuidado para não cortar um dedo outra vez.

O rosto de Crapo ficou vermelho como o de um bêbado envergonhado. Ligou o motor do cortador no máximo, espalmou as mãos para nós e disse, com a voz mais alta do que o estrondo:

- Não se preocupe, moleque! Ainda me restam sete dedos. Sete é meu número! De sete não vai passar!

A van se afastou pela estrada de pedras contornando mais uma vida inteira de muro. Quando já imaginava que aquela viagem nunca teria fim, chegamos a um portão. As grades eram bastante próximas, quase não dando para ver o que havia do outro lado. Não era feio, mas tão alto e fosco que me deu a impressão de estar diante da entrada de um hospício.

- Esse velho é mesmo maluco – balbuciou. – Sujeito muito agradável, não acha?

- Ele é engraçado.

O carro ficou estacionado um longo tempo. O motorista buzinou diversas vezes, até que as grades rangerem e se abrirem. Logo em frente, se erguiam prédios de tijolos desgastados, cujos topos pareciam que em breve iriam cair. Eram bem mais altos do que vistos de longe. 

O mais curioso percebi em seguida: um monte de aves nebulosas empoleiradas nas chaminés. Elas tinham um comportamento estranho. Aguardavam a vez para saltar em direção ao edifício maior, formando uma espécie de fileira de espera. Faziam isso de maneira ordenada, como se fossem adestradas (ou inteligentes os suficiente para se organizar). Um pássaro gordo tentou passar à frente atropelando os menores, que responderam bicando violentamente e empurrando-o de volta para seu lugar. Elas continuaram ordinariamente até entrar na janela circular bem ao topo. Também possuíam algo como um cordão pendurado em seus pescoços (e algumas não pareciam ter só duas asas, dois olhos ou apenas duas patas). Tive a impressão de ver uma usando óculos de mergulho. Limpei a sujeira dos meus óculos duas vezes, mas estava muito longe e, ao colocar os óculos de volta no rosto, a criaturinha já havia entrado.



- São espertas – disse Noel, tirando algo de entre os dentes com a unha. – Se não tomar cuidado te arrancam um olho fora.

Dessa vez não parecia uma piada.

Um homem em uma cabine ao lado da entrada puxava preguiçosamente a alavanca para fechar o portão atrás de nós. Meu amigo o encarou irritado, mas foi em vão. O sujeito tornou a seu jornal coçando os caroços nos lábios sem nos dar atenção.

- Esse idiota às vezes finge que está dormindo – Noel disse alto.

Os fundos da fábrica era ainda mais curioso. Montes de carcaças e peças de trem empilhados ocupavam um espaço maior do que um campo de futebol. Uma crosta de limo verde brilhante cobria cada porção de metal enferrujado. Aquilo me deu arrepios, pois me lembrou por um breve instante do sonho da outra noite: o trem que vinha em direção à janela do meu apartamento.

Evitei olhar, temendo que algo se mexesse no meio das ferragens.

O veículo percorreu um extenso pátio cheio de rachaduras até chegarmos a uma espécie de galpão em anexo a um silo largo como uma baleia. Ele ficava exatamente na metade do prédio principal do complexo. Por sinal, tinha telhas alaranjadas muito bonitas, mas, bastante avariadas pela chuva e vento. Ali, o som de máquinas martelando e perfurando era mais nítido, como se estivéssemos próximos do coração de um gigante de ferro. Fiquei curioso, pois não avistara ninguém se movimentando pelas janelas e o ruído, quase musical, não parecia vir de lugar algum. 

Estacionamos próximo a uma porta. Sobre ela havia uma placa de cobre quase tão vermelho quanto um leprechaum, onde estava escrito:

Escritório de Relações Ulteriores e Departamento Impessoal
Quarta Folha S.A.
(Limpe os pés antes de entrar)


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domingo, 18 de dezembro de 2016

Em honra




"Nossa vida é escrita e reescrita continuamente, como um sonho do qual despertamos sem saber que estamos em outro sonho, em camadas sucessivas, sem fim. Apesar de a escolha do caminho de tal campo onírico depender da dimensão de nossa vontade, há certa grandeza indeterminável que nos assalta de surpresa, coisas tão óbvias como a perda de pessoas que amamos.

Desculpe-me se não trato hoje do que de fato deveria falar: o livro que estou lendo, algum museu ou parque que visitei, músicas favoritas e comoventes, filmes interessantes etc. etc., mas não sou capaz de distinguir a arte que aprecio da vida que me atravessa, como sempre me ensinou um grande amigo que perdi esta semana. Segundo ele, nossos sonhos estão em um contínuo crescimento, uma ave que sobe infinitamente por um céu de um azul que nunca se acaba, ou um peixe que submerge e submerge sem nunca conhecer os limites da escuridão do mar. “Jonatas,” ele repetia. “O sonho sempre aumenta, ele sempre aumenta”. Confesso que nunca compreendi bem o significado daquilo. Quando me encarava com aqueles olhos arregalados da extensão do horizonte e sorriso de uma criança que acabou de descobrir o motivo de o céu ser azul, eu apenas concordava. Sempre me impressionava com a forma de meu amigo dizer, talvez por entender que ele também se impressionava com a minha própria forma de dizer as palavras. “Jonatas”, repetia depois de dar um tapa nas minhas costas. “Você é muito maluco”, e ria um riso que passava pouco do seu interior, como se ecoasse água em uma caverna sem fundo.



Acho que meio que percebia algo de familiar no reflexo daqueles grandes olhos de Buda. Talvez fosse isso que ele quisesse dizer. Cada vez que voltávamos para casa naquele largo trecho de estrada que o ônibus percorria, talvez estivéssemos, de certo modo, um crescendo nos olhos do outro. Não sei. Não tenho certeza se era como ele afirmava, se estávamos crescendo, se o sonho estava aumentando, mas atesto que além de dois caras voltando para casa, éramos rastro meio consciente de nossos próprios sonhos.

Sei que conjecturar aqui não é tão pertinente e adequado, mas Gulever me mandaria aos infernos se me abstivesse de me expressar o que desejo por causa de mera formalidade. Então, em honra a ele, digo: creio que seja a inevitabilidade da morte, essa é a palavra, que a inevitabilidade da morte seja outra misteriosa dimensão de grandeza à vida. Ela nos revela a certeza da eternidade, e há uma grande chance de jamais saber o porquê, nem mesmo depois de minha própria morte eu vá saber. Enfim. Tenho certeza de que Gulever gostaria muito de ouvir isso. E de certo modo, ouvir isso de mim mesmo é como se ele ouvisse. Você sabe. É impossível que se vá a parte dele que eu guardei aqui, dentro de mim. Estamos no mesmo sonho. Não há como fugir. É tão repetitivo. Tão verdadeiro. Renova-se e se releva tantas e tantas vezes. Fico feliz em saber de tudo disso."


Publicado originalmente no dia 11 de dezembro de 2016, no blog Papel Papel.


quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 6 ’Estrada da noite'

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O carro percorreu a estrada. Passamos por um parque em meio a vilas e residências mais ou menos antigas. O cimento se desfazia deixando exposto os tijolos vermelhos. Adiante, havia uma praça rodeada por estabelecimentos comercias e uma estátua em homenagem a uma mulher e seu filho no centro protegidos por um cercado de madeira. Nunca prestei a atenção naquele lugar. Acharia bonito se não estivesse paralisado e pensando sobre o que havia acontecido com o ajudante anterior. O motorista parecia se divertir.

- Oh, não se assuste, amigo, - comentou, manejando o volante com os cotovelos e terminando o último pedaço de sanduíche. - Se tudo der certo, você nunca mais vai precisar se preocupar com dinheiro.

- Como assim? – perguntei.

- Você vai ver.

Encolhi os ombros e afundei no assento. Comecei a imaginar se o trabalho se tratava de assaltar bancos, ou contrabandear arte e objetos caros de museus. Talvez tráfico de órgãos para exportação. Pensei por tanto tempo se deveria pular do carro em movimento que não percebi a paisagem se tornar diferente de todas as regiões da cidade que tinha frequentado. Provavelmente estávamos na parte de residências médias. As casas eram maiores e mais confortáveis que a maioria dos cubículos de condomínio. Achava o lugar estranho porque fazia tempo que não passava por ali. Desde que era criança, na época que ainda tinha coragem de arriscar longos passeios até o trecho mais esburacada da rodovia. As pessoas evitavam passar por ali. Era conhecido como o bosque-com-caminho e conduzia para a região onde não havia nada mais do que algumas fábricas abandonadas, até onde eu sabia.

- Se não piscar o olho quebra, - ele disse.

- O quê?

- É uma brincadeira de criança. Se não piscar o olho quebra, nunca brincou?

- Não saio muito de casa. 

- Entendo – disse, se concentrando mais no volante.

Suspeitei que ele estivesse percebendo meu nervosismo, então meti a mão nos botões do aparelho de som tentando aparentar tranquilidade, e disse.

– Posso ligar o rádio?

Ele cobriu com a mão espalmada. Quando toquei, me pareceu feita de madeira.

- Melhor não, - olhou para os lados. - Não tem música boa essa hora. E o toca-fitas não está funcionando.

- Não sabia que fabricavam toca-fitas.

- Esse carro é antigo.

Passei o dedo sobre o painel lustroso.

- Parece bem novo. Eu ia te perguntar como conseguiu consertar tão rápido. É o mesmo carro, não é?

- É sim. O seguro cobre tudo.

Ficamos sem nos falar por um bom tempo. Não tinha sinal daquelas aves esquisitas no céu e ainda estava escuro. Olhei para o relógio. Os ponteiros oscilavam. Todos marcavam doze horas.

- Ei, cara. Meu relógio está maluco. São quantas horas no seu?

Os ponteiros do relógio embutido no painel do carro tremiam sobre o número doze.

- Não é nada, amigo. Os relógios ficam pirados quando passamos pela Estrada da Noite.

Fixei os olhos na estrada escura e esburacada que rolava debaixo do carro. Ele sorriu um pouco sem jeito e jogou a garrafa de suco no meu colo e disse.


- Foi minha mãe que fez. Está ótimo. Pode matar. 


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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 5 ’Companhia nas árvores'


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A neblina densa cobria a rua e obstruía a visão de um lado a outro. Eu estava de pé no ponto de ônibus. Nenhum carro trafegava havia dez minutos por ali. O silêncio causava a impressão de que um fantasma passaria flutuando sobre a calçada a qualquer instante. Cobri a cabeça com o gorro do casaco e esfreguei minhas orelhas com as mãos frias. Conferi as horas no relógio com dificuldade pelo vidro embaçado. Os ponteiros marcavam quatro e quatorze.

- Ótimo. Acordei cedo para ficar parado igual a um idiota aqui, - resmunguei. – Pelo menos não está chovendo.

Então, como se uma nuvem perversa estivesse me ouvindo, uma gota caiu no meu ombro.

- Maravilha...

Bem ao longe, além do rio e da estrada, a parte comercial da cidade se erguia com muitos prédios de aço e vidro. Cinco avenidas cintilavam a ponto de parecer sempre dia. Ainda assim não era suficiente para ofuscar as estrelas. Olhei para o alto. Notei os estranhos pássaros iam e voltavam silenciosamente de uma árvore a outra.

As nuvens estavam espalhadas e não havia sinal de chuva. O que não fazia sentido, pois senti um segundo pingo no topo de minha cabeça. Passei a mão para ver se alguma ave tinha me deixado um presente sujo. Se algo havia caído, evaporou no mesmo instante. Não achei nenhuma sujeira. Tornei a olhar para o alto. A próxima coisa caiu dentro do meu olho. Esfreguei nervosamente com os dedos. Novamente, não encontrei nada. Antes que gritasse algum palavrão às aves, uma enxurrada se chocou contra meu corpo. Disparei em direção ao abrigo do ponto de ônibus, mas a coisa parecia atravessar a marquise de pedra e me acertava sem parar.


Irritado, resolvi voltar para casa, e rápido. A cada árvore que passava, eu me encolhia sob copas para saber se as gotas cessariam. No quarto pinheiro que ficava antes do condomínio Vésper, não senti pingo algum.

- Que coisa doente, - gritei.

As aves estavam todas aninhadas nas árvores ao redor, exceto sobre o pinheiro. Eu vou entender perfeitamente se você não acreditar, mas posso jurar que estavam reunidas num círculo, todas viradas para mim, me espiando e cochichando. Evitei de toda forma os seus olhos redondos e negros. Fixei minha atenção no movimento do ponteiro que marcava os segundos.

Ao longe, um par de faróis brotou reluzindo no nevoeiro. Era a van que vinha roncando suavemente. Estava nova em folha. Não havia um arranhão sequer. Nem parecia ter se espatifado contra a pilastra dois dias atrás. O freio chiou como um gato moribundo antes de subir o meio fio. O rapaz abriu a porta do carona, me encarou de olhos sonolentos e disse:

- Tudo bem, amigo? Está com uma cara de diabo assustado.
 
- Estou bem. Acho, - olhei para os lados parecendo idiota. – Foi só uma coisa, estranha. Um monte de, não sei. Caiu no meu rosto. Ah.

- Pode explicar no caminho.


 Entrei cuidando para não sair da proteção dos galhos. Nenhuma gota me atingiu. Ele pisou no acelerador. O carro cambaleou pela rua e adentrou a névoa. Baixei o gorro e olhei para o retrovisor ao meu lado para ajeitar o cabelo bastante embaraçado. Um vulto negro, rápido como um raio cortou o reflexo por trás do veículo. Cuidadoso, olhei pela janela e as avistei sobre as árvores. Pulavam silenciosamente de galho em galho sem vergar ou derrubar uma folha. Seguiam a direção da estrada. Pus a mão em concha ao redor dos ouvidos. Não faziam barulho. Era como se fossem tão leves quanto vapor. Girei a manivela até fechar completamente o vidro e afundei no assento de braços cruzados.

- Você está sério, - disse o rapaz. - Algo errado?

- Nada. Acho que só não tenho dormido bem ultimamente.

Ele pegou um sanduíche com uma boa porção de frango e uma garrafa com suco com a outra mão. Abriu a tampa usando os dentes. Ofereceu um pedaço para mim, e, enquanto mastigava, falou algo que me deixou desconfiado:

- Então é bom se preparar. Esse trabalho exige bastante. O meu último ajudante não suportou. E morreu. Então, é bom ficar atento para não cair no sono. Você consegue.

- Acho que sim, - respondi de olhos arregalados.


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terça-feira, 20 de setembro de 2016

Histórias de um entregador de sonhos – 4 ‘Oferta obrigatória’

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O leitor digital marcava onze e vinte. A sala estava completamente bagunçada. Driblei uma caneca com resto de café, embalagens de barra de cereal e um monte de guardanapo usado que meu hóspede não conseguira acertar na lixeira.  

- Mas que miserável... - resmunguei, empurrando a base do móvel e dobrando as juntas. -  Nem pra montar o sofá. 

Judas farejou algo próximo à mancha de manteiga. Um bilhete. Havia uma nota de cinquenta embrulhada na folha. Quando peguei, acabei sujando meu dedo com uma gota de molho barbecue na ponta do papel.  



- De onde diabo esse cara tirou barbecue? – disse, lembrando da geladeira vazia. 

Guardei o dinheiro no bolso e comecei a ler. A caligrafia parecia escrita por uma criança com um giz de cera. Demorei até conseguir decifrar.  

“Amigo. Não consegui agradecer. Mas, tenho um presente. Tomei a liberdade de dar uma olhada na sua casa. Rapaz, você está bem ferrado. Estou tendo uns problemas na empresa. Meu ajudante morreu há uma semana, então, trabalho  por dois. Gostei do seu perfil. Quero que trabalhe pra mim. Passo aí amanhã. 4h. Pode usar qualquer roupa. Tem que ser modesta, não pode chamar atenção. Deixei cinquenta pratas pela sujeira. P. S.: Você realmente me enganou. Achei que ia ligar pro hospital e chamar sua amiga enfermeira”. 

Lembrei da noite passada. O telefone caído no chão, fora do gancho. Enquanto afastava a carta suja da língua de Judas, girei o disco numerado com o fone apoiado no ombro. Até cansar. A operadora havia cortado o serviço de telefonia por falta de pagamento. Bati o fone no gancho. 

Aquele sujeito era bem estranho. Mas não tinha outra opção. Não agora. Avaliei se valeria a pena. Fiquei pensando que tipo de trabalho aquele cara fazia, se era trabalho pesado. Fui até a cozinha pegar resto de pizza na geladeira. Era o último pedaço. Meus pais viriam no dia seguinte pegar de volta a TV que o sujeito da empresa de energia elétrica havia levado. Dividi a pizza e dei a metade para Judas. 

- Não tenho saída, amigo.  

Deitei no piso gelado e abracei meu cachorro. Enquanto imaginava como seria o trabalho com aquele sujeito, deixei os olhos bem abertos. Evitava fechar. Toda vez que apertava as pálpebras, tinha a impressão de que uma manchinha verde, bem pequenina, aparecia lá no fundo. Igual à queimadura que fica no olho por um tempo depois de olhar direto para o sol. Mas ao invés do sol, era mais como um farol, um farol de locomotiva, uma locomotiva com uma garota conduzindo feito louca na minha direção.


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